sexta-feira, 4 de junho de 2010

Presente de uma aula(de vida) por Ana Valeska

O homem, bicho da Terra
tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol,
falso touroespanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

2 comentários:

  1. ...e, não é ótimo, não, comparar o coração à uma "viagem", concordo plenamente, ô, tu pra escrever bonitinho, muiézinha, ;>

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  2. Fiquei feliz em saber do teu blog Gabriela Flor!
    Esse poema do Drummond fala tudo.
    Adoro.
    Aguçou as lembranças do semestre passado e de nosso encontro.
    Bjs, e volto por aqui.

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