quarta-feira, 15 de junho de 2011



"Quem anda no trilho é trem de ferro,



sou água que corre entre pedras:



liberdade caça jeito."



Manoel de Barros


"Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz."




Sylvia Plath


"Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne, os sentimentos vastos não têm boca, fundo de soturnez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons, assim eu neste instante diante do teu corpo morto. Inventar palavras, quebrá-las, recompô-las, ajustar-me digno diante de tanta ferida, teria sido preciso, Lucas meu amor, meus 35 anos de vida colados a um indescritível verdugo, alguém Humano, e há tantos indescritíveis Humanos feito de fúria e desesperança, existindo apenas para nos fazer conhecer o nome da torpeza e da agonia."

Hilda Hilst - Rútilos

sexta-feira, 3 de junho de 2011


Qnto mais conheço a incapacidade dos homens de serem leais, mais amo minha liberdade, meus ideais e meus valores!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O escritor moçambicano Mia Couto disse um dia:

"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher, e sete, é um número mágico:
Primeiro Sapato – A ideia de que os culpados são sempre os outros;
Segundo Sapato – A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
Terceiro Sapato – O preconceito de que quem critica é um inimigo;
Quarto Sapato – A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
Quinto Sapato – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
Sexto Sapato – A passividade perante a injustiça;
Sétimo Sapato – A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros."

Mia Couto