Eu caminhava desviando das pequenas poças provavelmente formadas pela irregularidade de outros passos perdidos como os meus. Naquele momento, a força do meu movimento era idêntica à dos que nadam sem sair do lugar: num segundo eu via a margem, no seguinte era atraída para o fundo. Recordo-me bem disso. E também que acabei no banco da praça porque eram exaustivos demais os tais pensamentos. Sentei, coloquei o rosto entre as mãos e quando levantei os olhos, lá estava ele. Não sei dizer como surgiu ao meu lado. Não faço idéia se veio do céu ou de dentro de mim. Sei apenas que, de repente, lá estava o Poeta como que saído de uma fotografia, com sua bengala alada e seu cigarro suspirante. Meu coração disparou, minhas mãos umedeceram e eu virei a própria página em branco à procura da frase inicial. Sensível, esperto, atento, ele sentiu meu drama – mais esse – e falou primeiro:
– Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las...
– Mas... é que... de repente o inatingível tornou-se insuportavelmente cansativo para mim.
– Ah, essas pequenas coisas, tão quotidianas, tão prosaicas às vezes...
– Pois acho que ando desejando o trivial, o quotidiano, o previsível. Um amor de rotina, com mais ação e menos imaginação.
– A imaginação é a memória que enlouqueceu.
– Nem me fale em enlouquecer... Estava mesmo aqui pensando que o excesso de amor é o mais insano dos sentimentos.
– Amar é mudar a alma de casa.
– Pois a minha alma achava que dessa vez havia encontrado a morada certa. A ponto de eu desejar que ele tatuasse minha letra em seu corpo como uma espécie de promessa de amor eterno...
– As únicas coisas eternas são as nuvens.
Calei. De todas as frases dele, essa era, para mim, a mais perturbadora. Foi por isso que, no lugar de responder, cerrei as pálpebras como quem cria um dique para impedir a represa. Quando voltei a mim, Mario já havia virado novamente nuvem. Enquanto eu já não mais me sentia um guarda-chuvas esquecido que não sabe para onde vai.
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