quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A ENTREVISTA ABAIXO É FANTÁSTICA.

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>Revista Istoé publicou esta excelente entrevista de Camilo Vannuchi. O
>entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em
>administração de empresas pela USP, consultor organizacional e
>conferencista de renome nacional e internacional.
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>"Cuidado com os burros motivados"
>
>Em "Heróis de Verdade", o escritor combate a supervalorização da Aparência
>e diz que falta ao Brasil é competência e não auto-estima.
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>"Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está
>Cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das
>famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o
>que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes,
>motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência.
>Dizem-se
>perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos
>(heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não
>compartilha da síndrome de super-heróis.
>"Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que
>eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu
>enxovalho, nunca foi senão príncipe", dizem os versos que o inspiraram
>a escrever "Heróis de verdade" (Editora Gente, 168 págs.) Farto
>de semideuses, Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de
>atitude. "O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras".
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>ISTOÉ -- Quem são os heróis de verdade?
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>Roberto Shinyashiki -- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de
>sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro
>importado,
>viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo.
>Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de
>funcionários que não chegaram a ser gerentes.E essas pessoas são tratadas
>como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a
>maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o
>carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça
>que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa
>de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que
>trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os
>outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.
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>ISTOÉ -- O sr. citaria exemplos?
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>Shinyashiki -- Dona Zilda Arns, que não vai a determinados
>programas de
>tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando
>eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,
>empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente
>(SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus
>quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa
>em que está escrito "100% Jardim Irene". É pena que a maior parte das
>pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão,
>doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão,
>Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se
>mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher
>que, embora não ame mais o marido,mantém o
>casamento, ou
>o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se
>sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.
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>ISTOÉ -- Qual o resultado disso?
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>Shinyashiki -- Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer
>preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês,
>informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única
>coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a
>desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a
>infância dos
>filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão
>discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo
>corporativo.
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>ISTOÉ - Por quê?
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>Shinyashiki -- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a
>começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais
>marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a
>competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que
>respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que
>ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito
>interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho
>dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na
>contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num
>processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.
>
>ISTOÉ -- Há um script estabelecido?
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>Shinyashiki -- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente
>de multinacional no programa O aprendiz? "Qual é seu defeito?" Todos
>respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: "Eu mergulho de
>cabeça
>na empresa. Preciso aprender a relaxar". É exatamente o que o Chefe quer
>escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou
>esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma,
>na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O
>vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me
>disse: "Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir". Isso
>significa que quem fala a verdade não chega a diretor?
>
>ISTOÉ -- Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
>
>Shinyashiki -- Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se
>preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se
>preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o
>maior problema no Brasil é
>competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada
>fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está
>preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na
>minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer Que isso nunca aconteceu
>graças a meus chefes, que foram sábios em não me
>dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da
>faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou
>incompetente e não acordou para isso.
>
> ISTOÉ -- Está sobrando auto-estima?
>
>Shinyashiki -- Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso
>que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes,
>o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta
>para conquistar o respeito
>do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo
>de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem,
>parece que acreditam. E poucos são humildes para
>confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que
>preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem
>pose de que está tudo bem.
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>ISTOÉ -- Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos
>perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
>
>Shinyashiki -- Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando
>os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O
>técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles
>não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia:
>"Quando você quiser entender a essência
>do ser humano,imagine a rainha
>Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de
>Buckingham". Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem
>diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza,já fez
>coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis.
>Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um
>fracassado.
>
>ISTOÉ -- O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
>
>Shinyashiki -- Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado.
>A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada
>de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque
>acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
>A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade
>pela própria
>vida é delas.
>
>ISTOÉ -- Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer
>essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
>
>Shinyashiki -- Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz
>minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui.
>Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais
>velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança
>especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la
>o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho
>para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram
>apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não
>deu certo. Um amigão me perguntou: "Quem decidiu publicar esse livro?"
>Eu respondi que tinha sido eu.
>O erro foi meu. Não preciso mentir.
>
>ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
>
>Shinyashiki -- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas
>cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é
>precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é
>buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por
>isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do
>aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith
>Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do
>Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver
>suas próprias potencialidades.
>
>ISTOÉ -- Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são
>seus?
>
>Shinyashiki -- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro Loucuras
>da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se
>ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: Você tem de
>estar feliz todos os dias. A terceira é: Você tem que comprar tudo o que
>puder. O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura:
>Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe. Não há
>um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o
>sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um
>estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não
>casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do
>casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou
>amigos
>verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.
>Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de
>pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre
>procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico
>pela camisa e diz: "Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida
>inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz". Eu sentia uma dor enorme
>por
>não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas
>pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o
>dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou
>perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.

3 comentários:

  1. "A única
    >coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança."

    "Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo
    >de vida se tornou parecer."

    "Quando você quiser entender a essência
    >do ser humano,imagine a rainha
    >Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de
    >Buckingham"

    "Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque
    >acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
    >A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade
    >pela própria
    >vida é delas."

    Isso é verdade! Certa vez numa conversa me disseram que a vida estava boa até o governo lula, que aí ficou sem emprego etc... Mas aí eu disse, auto lar, peraê, o Brasil tá melhor sim que antes, é fato, é perceptível. Não coloque as suas escolhas nas costas de outra pessoa, assuma seus erros e seus fracassos. Assim como assume, cheio de orgulho, seus avanços e seus acertos.

    Além disso, sei bem dessa falta de competência, na empresa onde trabalhava era visível isso. Todo mundo era bom, mas na hora do vamo ver. Fora que um dia fui ao banco e o rapaz passou uma aparência ótima pra cliente, quando ela saiu ele foi perguntar pro cara do lado se tinha falado tudo certo, fiquei indignado. Até escrevi uma cronica disso de tão perplexo que fiquei.

    "A segunda loucura é: Você tem de
    >estar feliz todos os dias." Isso talvez seja a maior loucura da existência. Como se a felicidade fosse o motivo de tudo... Argh! Vontade de ficar cada vez mais áspero agora!

    "Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o
    >dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou
    >perdido várias oportunidades para aproveitar a vida. "

    Fantástica é pouco para essa entrevista. Absolutamente extraordinária!

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  2. Também achei, Caetano!
    Esta questão do parecer ser e ter só leva a miserabilidade do ser humano, como cidadão, como trabalhador, como homem ou como mulher, enfim, falsas competencias que nos rondam o tempo todo! Me enojam!

    Ou você é ou não, se não sabe tenha a humildade de dizer "não, eu não sei". A lealdade do ser anda é longe! As pessoas não conseguem admitir seus proprios sentimentos nem pra si.

    Urgh!

    Concordo plenamente contigo:
    "Fantástica é pouco para essa entrevista. Absolutamente extraordinária!"

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