Do amor intransponível que tenho me perco no esperar. Esperar porque o dar não é possível. A resposta que me é posta, resigno a aceitar, custo a acreditar. Pois estamos ali expostos as dores da noite, corpos entregues e almas fechadas. Juntos e separados. O silêncio é estadia e necessário. Me refaço a cada entrega e me nutro de uma natureza que lateja, de ser. De amar.
Amo-me como amo a noite, o mar, a solitude, o primeiro raiar queimando a pele, o impossível. Amo o amor impossível. Sou o amor impossível. É um ciclo. Somos um ciclo.
Pela impossibilidade da entrega, não há recebimento, portanto sou intransponível. Sou tanto quanto queria ser. Dou-te o que posso dar-te, limito-me por ser um corpo fechado.
Como pode amar tanto assim? Como pode um corpo fechado abrir-se tanto para o amor impossível?
A temperança. Amar é a forma mais verdadeira de viver. E a verdade dói. Lateja. Viver verdadeiramente é para poucos, poucos amam. Poucos são amantes de si mesmos. E a partir dai não existe o equilibrio. Amar-se é fazer parte da dificil arte de viver, é um passo dado, meia vida vivida.
A temperança acalma o orgulho, cala a cólera, amadurece o impulso. Negocia com a saudade. Amar também é sentir saudade, manter a lembrança afetiva viva. Não somos só presentes. E isto de vez em quando dói, dói porque foi verdade, verdade que agora vive presa por ter sido, e não poder ser. A intensidade do passado se faz presente quando o presente daquele passado se torna infinito. A infinitude do olhar, do gosto, do cheiro, do sentir em cada compasso. O sentir só é profundo quando estamos nus diante da verdade, quando somos seres sem máscaras, sem o escárnio da humanidade, e principalmente, quando mesmo não preparados(porque preparar-se é entender, e entender é impossibilidade) estamos diante da vida, nus. Disponíveis.
Ultrapassarmos a dor, sentí-la e deixar passar. Esperar sendo. Esperar também é viver. Não é a inércia de viver, como muitos pensam, esperar sendo é aprender a amar.
Ser o melhor para si. Amando a si, para assim estar nu diante do maior valor da vida: o amor pleno dado a um outro ser.
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