terça-feira, 17 de agosto de 2010

"Esperou sem pressa pela madrugada. A melhor luz de se viver era na
madrugada, leve tão leve promessa de manhãzinha. Ela sabia disso, já passara inúmeras
vezes por isso. Como para um pintor que escolhe a luz que lhe convém, Lóri preferia para
a descoberta do que se chama viver essas horas tímidas do vago começo do dia. De
madrugada ia ao pequeno terraço e quando tinha sorte era madrugada com lua-cheia.
Tudo isso ela já aprendera através de Ulisses. Antes ela evitara sentir. Agora ainda tinha
porém já com leves incursões pela vida.
Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos
bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava
toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava
profundamente límpida.
Nesta madrugada fresca foi ao terraço e refletindo um pouco chegou à
assustadora certeza de que seus pensamentos eram tão sobrenaturais como uma história
passada depois da morte. Ela simplesmente sentira, de súbito, que pensar não lhe era
natural. Depois chegara à conclusão de que ela não tinha um dia-a-dia mas sim uma
vida-a-vida. E aquela vida que era sua nas madrugadas era sobrenatural com suas
inúmeras luas banhando-a de um prateado líquido tão terrível...Teria
sido esperteza dela avançar no tempo, e imperdoável ser mais sabida que os outros. Por
isso, apesar da curiosidade intensa que tinha pela morte, Lóri esperava.
Amanheceu."

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.34,35

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