domingo, 11 de julho de 2010
Nós (ou o lamento da triste despedida de um amor)
Um domingo de Sol é você todo. Pela milésima vez afasto os pensamentos, mas é inevitável. No dia mais iluminado do ano chega a clara visão: nossos nós pesam. Ficaram maiores desde que nos separamos e continuam a crescer com o tempo. Difíceis de desentranhar. Nós aos pedaços. Quem dera fossem frouxos. Seriam mais fáceis de lidar, desataríamos os nós e poderíamos fazer laços bonitos por aí com a parte que coubesse a cada um. Mas não são. Serão nossos nós tão apertados ao ponto de estarem cegos? Nós cegos são cárceres. Nada flui no imenso oceano de nós mesmos e ficamos prisioneiros de um minúsculo- infinito mundo particular. Parados, peixes petrificados esperando algum milagre que desfaça os nós. Ou um herói-marinheiro que mostre a rota para navegar melhor nesse mar. Difícil sem desencalhar o navio. Enquanto isso, vou juntando os cacos. Parecem com o corpo do pão que peguei para comer e que se esfacelou em minúsculas migalhas. São cacos leves de mim. Qualquer mínimo vento ameaça levar os pedaços e para não me perder de vez e correr o risco de não mais me encontrar fico quietinha entregue apenas ao movimento da memória que nada no contra fluxo da maré do tempo. Em mim moram as lembranças de nossos nós poéticos, melífluos, cúmplices, lapidados, quando nossos corpos se entendiam e nossas almas desnudavam-se e os fragmentos ocasionais não assustavam, a vida tinha tanto encantamento, cor e luz que nossa solda era eficaz e delicada, qualquer parte partida era imediatamente colada sem traumas. Meu amor, doeu fundo o erro que cometeste e a punhalada que me deste pelas costas. Por isso você me fazia colares com cacos de vidro? Era anúncio, aviso, presságio bélico de nossos nós unidos para serem partidos? É triste quando se quebra um laço de amor. Ficamos à mercê da benevolência do tempo para dissolver a metamorfose dos nós, o coração vai se recompondo de pedaço em pedaço, em retalhos. DE-VA-GAR. De vagar em vagar passo a passo segue o tempo e permanece um engasgo, um nó preso bem no meio da garganta, nó intenso, especialmente gigante, nesse lindo domingo de Sol.
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