sexta-feira, 25 de março de 2011


"Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me
dentro das grandes águas
nas praças
num fogo coração
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
ou espelhada
num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra,
semente, sal
passos da vida.
Procura-me ali.
Viva."

Hilda Hilst
"Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,

A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."


Alberto Caeiro



"Faço grande esforço para não ter o pior dos sentimentos: o de que nada vale nada".



"Batuque é um privilegio

Ninguém aprende samba no colegio

Sambar é chorar de alegira

É sorrir de nostalgia

Dentro da melodia"



Noel Rosa e Vadico

Suavíssima


"Os galos cantam, no crepúsculo dormente ...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente ...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente ...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma ...

Fica-se longe, quase morta, como ausente ...
Sem ter certeza de ninguém ... de coisa alguma ...
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma ...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente ...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente ...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente ...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente ...
Tão para lá! ... No fim da tarde ... além da bruma...

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma ...

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma ...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente ..."